domingo, 22 de dezembro de 2019

DIVAGANDO PELA VIDA.

UM GRITO SUFOCADO PELO SILÊNCIO.

Quantas noites e madrugadas virando na cama, buscando no meu passado, o porque que todo os caminhos por onde passei, foram cheios de tropeços, porem sempre guiados por um ser superior !denominado DEUS

E a ele que em todos momentos das noites mal dormidas fico pedindo, conselhos para que possam solucionar os meus problemas. Mas como surgiram os meus problemas e quais são eles? Existem problemas que não tenham solução?

A partir de quando eu perdi a minha estrada ficando preso a uma encruzilhada sem saída. Eu sei que não cheguei a este mundo por acaso. Eu devo ter uma missão a cumprir.

Será que vou passar pela vida sem saber qual o meu papel a ser cumprido; eu só posso contar com um ser superior para mostrar qual o caminho a seguir, mas de tanto pedir, chego a pensar que não mereço esta resposta.


Quando eu busco no meu passado aquela pequena trilha por onde eu comecei os meus primeiros passos, eu começo a perceber o quanto a minha caminhada foi longa e cheia de tropeços. Isto me leva a crer que há um ser muito poderoso acompanhando meus passos, caso o contrário, já poderia ter ficado pelo caminho como tantos outros.

Mas eu estou tentando descobrir porque procurei tanto a felicidade em tudo àquilo que faço e tropecei em todos os momentos. Eu não acredito no acaso ou será que todos nós já nascemos predestinados a ser ou não felizes, não poderíamos mudar o caminho no meio da estrada. 78 anos de janela.

O meu amanham a deu pertence. PALMÉRIO 11/02/2021. 


Esta é a história, que não faz parte da historia destes pais; escrito e narrado por quem não tem medo da verdade. Palmério! O repórter destemido.
O que passo a relatar aqui teve seu inicio em 30 de Agosto de 1942, quando nasceu o terceiro de nove irmãos. Fato que aconteceu em um lugarejo chamado Capelinha do Abaeté, no município de São Gotardo, estado de Minas Gerais. Éramos uma família de camponês muito pobre, que vivia do trabalho na agricultura.


Com dois anos de idade o meu computador mental já registrava os primeiros acontecimentos, eu me recordo dos meus cabelos castanhos aloirados e longos e eu já fugia de casa indo me esconder na casa de meus tios enquanto minha mãe me procurava pelo quintal de casa.


Eu nunca tive a oportunidade de saber o verdadeiro grau de estudo de meu pai, mais pela letra muito bem traçada em seus manuscritos e pela sua politização se percebia que ele era muito inteligente, sempre dizendo que o homem só era respeitado pelos seus conhecimentos.


Já a minha mãe sempre dizia que os seus pais comentavam que mulher não precisava estudar para ser dona de casa, ainda não existia a emancipação da mulher; mas a educação que os dois passaram para os nove filhos do casal era impecável. 


Ninguém Se atrevia em faltar com o respeito a qualquer um dos dois.
Recordo-me que meu avô paterno, nos seus últimos anos de vida, já estava paralítico e se movimentava em uma cadeira de rodas. Ele era um pouco calvo, cabelos brancos e barbas longas. Era muito parecido com o famoso barão e morreu por volta de 1945, com 83 anos de idade. Eu não cheguei a conhecer a minha avó paterna. Já o meu avô materno era muito sistemático e impunha o respeito.

Além de agricultor, era caixeiro viajante, ele tinha um bom carro de boi, no qual levava produtos da agricultura para a região de Uberaba e voltava com o carro cheio de roupas, tecidas e Utensílios domésticos. 
Quando o meu avô faleceu em 1956, a minha avó passou a morar com os filhos até sua morte em 1962. Por volta de 1946 a gente tinha uma criação de cabras, porcos e galinhas que ajudava na nossa alimentação. O meu pai me colocava na garupa de um cavalo e me levava para a roça e por lá a gente ficava a semana inteira. Com quatro anos de idade eu já buscava água em uma cabaça para matar a sede dos outros que estava trabalhando na lavoura. Em 1948 a gente já contava com seis irmãos.


Como não éramos donos da terra estava sempre mudando enquanto por outro lado, os latifundiários sugavam o suor dos trabalhadores no campo. Mas imperava a pobreza absoluta e quanto maior a quantidade de filhos, maior era a lucratividade dos fazendeiros, porque o trabalho das crianças não era remunerado. No final da década de quarenta fomos morar no município de Matutina e até esta época ninguém tinha certidão de nascimento. Foi quando o meu pai aproveitando de uma campanha política resolveu fazer um registro coletiva ficando uma grande parte da família como se fosse nascido em Matutina.


E não; em São Gotardo. Por volta de 1950, eu tive uma desidratação quase fatal. Por falta de médicos e excesso de crendice, os meus pais começaram a me levar em curandeiros e charlatões. Tinha nesta fazenda um vizinho, que se atendia pelo nome de Farnézio, que se dizia ter um pacto com o diabo e começou a fazer garrafada dizendo que ia me curar usando a sua feitiçaria. O que quase me matou. Nesta época morando em uma fazenda chamado barro preto, a namoradinha de meu irmão mais velho foi à vítima fatal da feitiçaria e o meu irmão foi salvo por milagre. O meu pai era muito habilidoso no manuseio com madeiras e improvisava os nossos brinquedos fazendo carrinhos de madeiras. As rodas eram feitas com carretel de linhas e a carroceria era feita com latas de sardinhas.


O meu pai usava uma madeira que já está extinta no mercado brasileiro, com o nome de canjerana era uma madeira vermelha e muito cheirosa. Cansado de ficar deitado em uma esteira esperando pela morte, já muito debilitado eu pedi que selasse um cavalo porque eu ia à cidade. 
Quando eu voltava, passando por uma cava eu avistei pela frente um bode que estava chifrando as pedras e soltando fogo pelos chifres, com um forte cheiro de enxofre. Eu cheguei à espora no cavalo que passou a galopar, só indo parar no curral de minha casa. Foram vários casos de alucinações que até hoje permanece a dúvida em minha cabeça porque eu não consigo imaginar isto como um fato real.


Já com oito anos, morando na roça, em um passado tão distante, escola era um luxo que só quem morava na cidade tinha direito. Por várias vezes tentamos estudar em pequenas palhoças improvisadas lá na roça como se fosse escola, mas as constantes mudanças de um lugar para outro tornavam quase impossível um aprendizado. Matriculava em uma escola, se mudava; começava tudo de novo em outra. Mas eu já tinha uma noção bem clara para distinguir o que era certo e errado.


No começo de 1950 fomos morar em uma pequena cidade que era chamada de Pouso Alegre, que fica entre o Rio Paranaíba e Arapuá. Morando na cidade e indo trabalhar na agricultura era muito difícil. Nesta época eu fui trabalhar em um engenho que fabricava rapadura. Distante dos pais, eu passava a maior parte do tempo em um rancho improvisado, cercado por lobos que uivavam a noite inteira na beira do rancho de pau a pique. Ainda não tinha nove anos eu era incumbido de levantar às duas horas da madrugada e sair descalço, enfrentava a geada e os lobos em busca de um cavalo e dos bois para iniciar a jornada no canavial, o único alimento possível neste horário era um ovo frito com farinha, para ganhar dois mil réis por mês.


Por de volta de 1955, como os meus pais não tinham meios para sobrevivência na cidade, acabamos indo de novo para o trabalho braçal. 
Só que desta vez fomos para a lavoura de café, ali na região de Campos Altos e Cachoeirinha. Mais uma vez fiquei doente e de novo a falta de médicos me levou a curandeiros.


Desta vez foi o sarampo que quase me deixou cego. Curiosamente voltei a ter alucinações. Em certo dia eu estava acamado e muito doente quando um gato preto pulou em cima de minha cama - eu odiava gato preto. Peguei o bicho pelo rabo e atirei contra a parede. Estas visões diabólicas vinham sempre acompanhadas de uma enfermidade e até por isto eu nunca levei a sério, porque eu estava acometido de uma desidratação violenta.


Eu tomei uma decisão mais radical. Entre morrer nas mãos de charlatões ou buscar recursos médicos, eu resolvi fugir de casa e ir para a cidade em busca de socorro, isto aconteceu por volta de 1957. Quando eu tinha apenas 15 anos de idade já buscava a minha independência. Com tantos problemas pela frente, tais como viver longe de meus pais e meus oito irmãos, foi tudo muito sofrido, mas buscar socorro e o crescimento intelectual era primordial e tinha um preço a pagar. Juntei alguns pertences pessoais e pela primeira vez meti a cara no mundo, indo morar com uma tia em São Gotardo.


Eu Iniciei um tratamento médico com um restabelecimento imediato. Em plena adolescência quando aflorava a vaidade, consegui emprego em uma lanchonete e depois, aprimorando os meus relacionamentos, fui trabalhar como cobrador do ônibus que fazia a linha de São Gotardo a Campos Altos.   
Neste meio tempo, os meus pais mudaram para São Gotardo e de novo eu tive a sensação de estar com a família, só que foi por pouco tempo, pois a falta de trabalho na cidade levou os meus pais de novo para o campo.


Algum tempo depois, para o meu desespero, os meus pais resolveram que iriam se mudar para Goiás. Só aí eu percebi que estava sozinho no mundo e que dali para frente eu teria que construir um futuro para minha vida. 
E apesar da falta de escolaridade, eu pude perceber que a educação que eu havia recebido de meus pais era a base suficiente para me guiar pela vida. 
Como todo adolescente, passei por todas as tentações do mundo. Fiz muitas besteiras que poderia ter evitado, caindo para aprender a levantar e apanhando para aprender a bater.


Respeitando o orgulho que meus pais tinham dos filhos, honrando a tradição de uma família conhecida pela sua honestidade. Mas a saudade de minha família, que havia partido para o estado de Goiás, batia no peito machucando um coração despreparado de um jovem que buscava um ombro amigo para chorar e um caminho a ser seguido na vida.  As lembranças de um caminhão partindo com a mudança e todos acenando com a mão, o cachorro que acompanhou latindo até certa distância e, quando parou, olhou para trás e voltou balançando o rabo e deitou nos meus pés a me lamber, acabou por me consolar pela perda de um lar que também era seu.


A partir deste momento, eu tinha que conviver com um fato novo: a saudade e a sensação de perda de uma família tão bonita que havia partido para tão distante. Eu comecei do nada indo morar em um quartinho nos fundo de uma oficina da empresa que trabalhava. Não tinha nada além de uma caminha velha e uma torneira do lado de fora, que era usada para colocar a mangueira e lavar os carros. 
Isto é um resumo. Do que passei na minha adolescência hoje eu tenho 78 anos de janela da vida.
Eu só não posso perder o meu humor nem a confiança em Deus!

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